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Roupas de papel

Maria, da Terra da Alegoria, tinha três mudas de roupa, todas iguaizinhas, pecinhas simples de chita. Mas chega uma época em que ela começa a querer a participar de festas, outros eventos, ou, talvez, seu patrão lhe disse que ficar indo trabalhar naqueles trajes não estava ajudando muito.

Maria decide que precisa de roupas novas, e o que fazer? Tudo parece muito difícil, ou muito custoso, uma roupa nova na loja está pela hora da morte. Então ela tem uma brilhante ideia. Vai fabricar as próprias roupas, e vai arrasar por aí, impressionar a todos com o seu estilo.

Só que ela não sabe costurar. E que ansiedade terrível, que ela queria roupas novas para ontem! Ela olha em volta, ainda decidida a fabricar as próprias roupas, vai na papelaria e volta cheia de cola, fita adesiva e papel crepom. Em pouco tempo, lá está um vestidinho colorido, todo fashion.

Mas qual sua decepção quando as coisas não vão bem como ela imaginava. Quanto cuidado ela tem que ter para andar  e não rasgar nada. E as altas mirabolâncias que ela tem de passar para nunca jamais tomar chuva, e se tornar uma bagunça de tinta e papel machê!

Mesmo assim, ela insistiu na ideia, sempre se gabando de quanto estava economizando, e quanto suas roupas ficavam prontas rapidinho. E comentando de passagem que o mundo todo que era muito ruim, de fazer com que o pano fosse tão caro, que costurar pano fosse tão complicado, que ninguém via valor naquilo que ela produzia e o quanto isso tudo fazia da vida dela uma miséria.

Para nós, isso tudo é muito ridículo, mas todos nós temos nossas mariices.

É natural da Vida querer nos tirar das nossas zonas de conforto, para que possamos manifestar as nossas potencialidades. E para isso, ela nos traz situações que nos instiguem.

A questão é o que fazemos com esse estímulo. Maria não ter roupas e não saber costurar não foi o que fez sua vida miserável, mas sim seu apego às suas próprias ideias.

Fazer roupas de papel não era um problema. De certa forma, ela tinha um anseio a responder (no caso, ter roupas novas, mais adequadas à vida que estava levando), e começou o trabalho de atender a esse anseio, com as ferramentas que tinha em mãos. Mas o objetivo, na verdade, não era simplesmente que ela tivesse roupas novas, mas sim que ela desenvolvesse novas habilidades.

E, nesse momento, ela se apegou às próprias ilusões, como a de que pano era caro, ou costurar era difícil, ou que era tudo muito demorado, ou que o mundo era injusto.

O que lhe faltou foi humildade verdadeira para ver que a sua primeira experiência não teve como resultado algo funcional, e que a situação toda foi criada pelo universo justamente para que ela se encontrasse em uma posição onde ela adquirisse novos aprendizados (como cortar pano, costurar etc).

Temos toda a eternidade para ficar experimentando com o que quisermos. O Universo existe para isso mesmo. Mas, de certa forma, nos acostumamos tanto a vestir certos conceitos, que nem percebemos mais que existe uma gama imensa de outras opções, assim como a Maria não percebia que, se investisse um pouco de trabalho em se desenvolver, não teria mais que ficar se restringindo ao andar, ou para onde ia com suas roupinhas; na verdade, ela não percebe que está se diminuindo para fazer com que ela se adeque à suas roupas, e não o contrário; que o que a restringe é sua resistência a considerar novas ideias, ideias diferentes da que está acostumada, e não seus modelitos de celulose, e muito menos a sua atual falta de habilidade com as agulhas ou o preço dos tecidos.

É do interesse da Criação que desenvolvamos nossas habilidades, e para isso Ela trabalha constantemente, usando todos os recursos necessários. Como estamos no treinamento de sermos Criadores, temos livre arbítrio, e isso implica em absoluto respeito a todas as nossas escolhas.

Afinal escolher, por si só, é um ato criativo.

É óbvio que, quanto melhor uma certa habilidade, mais facilmente a realizamos, e melhores os produtos de seu uso. E para o Universo, quanto mais funcional uma determinada coisa, melhor, ela é mais eficiente, gasta menos energia, é mais harmoniosa e mais bela. E basta olharmos para o mundo que nos cerca para vermos que tudo na Natureza tende para o menor gasto de energia, maior harmonia e maior beleza.

Em suma, quando recebemos os resultados das nossas criações que fogem a essa funcionalidade, não é que o mundo está contra nós, mas somente que ainda não estamos exercendo nosso poder criador da melhor forma possível. Cabe a nós descobrirmos de onde essa criação se origina, e testarmos novas possibilidades.

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