Uma caixa branca, vazia, com a tampa dela apoiada em um dos lados

Uma caixa cheia de nada

Uma caixa branca, vazia, com a tampa dela apoiada em um dos ladosO pensamento comum é carregado de muitos conceitos inadequados, e que não fazem nada além de atrapalhar o nosso desenvolvimento como consciências. São como um grupo de bandalheiros procurando garantir a própria sobrevivência, já que, quanto mais pessoas consiguirem fazer um upgrade de ideias, menos energias vão doar para eles, e eventualmente eles vão morrer de fome.

Diga-se de passagem que todos nossos pensamentos têm forma no plano mental, e que pensamentos que são sustentados por muitas pessoas formam estruturas definidas, também capazes de influenciar outras pessoas, se as mentes dessas pessoas forem mais fracas que o poder investido nessas formas-pensamento.

Um conceito frequentemente aceito sem contestação é o de que a vida espiritual e a vida material são distintas e separadas. A maior parte das pessoas, quando se depara com a possibilidade de estudar assuntos espirituais, delega a esses estudos uma baixa prioridade, porque tem uma série de outros compromissos ou atividades mais importantes, e iminentemente práticas.

Mas basta ter uma visão um pouco mais profunda das nossas experiências de vida para percebermos que aquilo que não é palpável fisicamente interfere diretamente na nossa vida cotidiana. O estudo da espiritualidade visa, primariamente, nos colocar no controle da nossa parte impalpável, mas constantemente sentida, para que possamos exercer o domínio do mundo material da forma mais eficiente.

Um exemplo claro é o da vergonha. Todos nós já sentimos a vergonha, e, quando nos prendemos a uma visão superficial da vida, nos sentimos vítimas dela.

Mas ao nos aprofundarmos, as coisas vão mudando de figura.

A vergonha é uma reação emocional de desconforto, frente a uma determinada situação. No entanto, o que não percebemos a princípio é que a realidade é apenas uma pequena parcela, a ponta do iceberg, dessa situação percebida. Afinal, nada aconteceu ainda.

Vamos supor que o Augusto João está na casa da namorada, e morrendo de vontade de repetir a sobremesa. Ele ainda nem terminou de engolir o último pedaço da sua sobremesa atual, e imediatamente a mente dele dispara, tentando avaliar a atitude dele, e em poucos segundos junta todas as regras de etiqueta, tudo aquilo que ele pensa que  os outros vão pensar, já se enxergou humilhado perante o juízo alheio, o que aconteceria se alguém passar a não gostar dele porque ele foi guloso… se ele deixar, em um minuto, na cabeça dele, ele já está pedindo esmola na rua para juntar dinheiro para o ônibus para voltar para casa, sem namorada, sem lenço nem documento, porque todo mundo ficou tão ofendido com seu repeteco que ele foi expulso da festinha.

Obviamente, nesse delírio, a mente nunca pensa que os resultados podem ser positivos. Isso acontece porque ela é influenciada pelos pensamentos coletivos, e pelo nosso ego, que são parceiros de crime inseparáveis, sempre se apoiando mutuamente.

Reparemos que nada aconteceu, mas a mente já foi muito longe. Mesmo assim, nesses casos, nos envolvemos tanto com o nosso mundo invisível, que deixamos que ele influencie nossas ações no mundo material. Todo mundo já deixou de fazer alguma coisa por causa de vergonha.

Como dizem por aí, vergonha é “uma caixa cheia com as coisas que você não fez”. Uma imensa caixa cheia de nada.

Seja através de meditação, ou de oração, ou qualquer outra prática, as práticas realmente espirituais procuram nos fortalecer individualmente, nos ajudando a interromper esse fluxo descontrolado de ideias, e nos colocar no controle de veículo, e não o contrário.

Ao nos desvencilharmos da rede mental, passamos a contar mais com a realidade, e com a verdade de que nada existe a não ser que experienciemos esse determinado fato. E, frequentemente, por mais que elocubremos por horas, tentando cobrir todos os aspectos de uma situação, o resultado da experiência é muito diferente das nossas suposições. Muitas vezes, aceitar nossa que não temos o poder de fazer algumas coisas na nossa esfera material é justamente o que resolve a situação, porque delegamos então a questão para os níveis imateriais, que realmente têm o poder de atuar. E se a ação dos agentes do mundo material, com quem tanto nos preocupávamos, já é surpreendente, a ação dos agentes imateriais é ainda mais, com a vantagem que não tivemos que nos preocupar com nada.

E quando vemos isso acontecer, então compreendemos que a melhor maneira de cuidar dos nossos assuntos materiais é conhecermos nosso lado espiritual, e trabalharmos com ele.

Um comentário para “Uma caixa cheia de nada”

  1. Helena

    Verdade!! na caixa das coisas que não fizemos, além das não fizemos porque ficamos com vergonha, tem as que não fizemos por que o “Fulano” não deixou…
    Muito bom seu texto!!!

    Responder

Deixar uma resposta

  • (will not be published)

XHTML: Pode usar estas marcas: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>