Foto do ator Anthony Hopkins, que faz o papel do senhor idoso no filme 360.

Terra do Nunca

Foto do ator Anthony Hopkins, que faz o papel do senhor idoso no filme 360.Um senhor idoso viaja do Reino Unido aos Estados Unidos, perseguindo um triste objetivo: encontrar sua filha. Mais que isso, não está atravessando um oceano porque encontrou pistas sobre seu paradeiro, mas porque leu notícias sobre um corpo não identificado de uma mulher na idade aproximada que sua filha teria, no outro lado do mundo. Parcialmente solícitos, os oficiais de polícia levam o senhor ao necrotério, para que possa reconhecer o cadáver. Uma rápida olhada, e aquela não é a filha daquele senhor. Ao se despedir, o oficial faz um comentário jocoso, e o senhor percebe que já está virando motivo de deboche entre os policiais americanos, como uma lenda urbana, pois tem feito isso ano após ano: o homem desesperado que corre atrás de  qualquer coisa relacionada a uma filha desaparecida.

Essa é uma das histórias contadas no filme “360″, de Fernando Meirelles.

Todos nós somos educados para fazer muitas coisas, desde pequenos, mas raramente aprendemos o que deveria ser mais óbvio, que é perceber a realidade. E apesar de estarmos lidando com assuntos espiritualistas, não estamos nos referindo a perceber a realidade imaterial, espiritual, conversar com fadas ou espíritos desencarnados ou mestres de outras dimensões. Nos referimos à realidade imediata, corriqueira, até mesmo material.

Raramente a percebemos de fato.

Imaginemos uma pessoa que tira seu extrato da conta do banco, e está no vermelho. Logo abaixo, há o anúncio de um empréstimo supimpa, ela não pensa duas vezes e o contrata. Pouco tempo depois, o mesmo acontece, e ela renegocia o empréstimo, ou saca dinheiro do cartão de crédito, ou procura uma financiadora diferente, pede ao agiota… inexplicavelmente, pouco tempo depois, ela volta a não ter dinheiro.

Qualquer um já seria capaz de propor uma solução para essa situação: gaste menos, ganhe mais. Isso é tão óbvio, que é difícil de compreender porque a pessoa continua se afundando em dívidas, até que realmente a conheçamos, e então vamos descobrir que ela simplesmente não está disposta a se privar de certas coisas que considera prazerosas, ou de realizar um trabalho diferente que lhe dê mais ganhos. Ela se ilude, procurando algumas soluções imediatistas que maqueiam a aparência do problema, mas não removem as causas. As dívidas, porém, não desaparecem só porque ela escolhe se concentrar somente no saldo atual de sua conta, e não no total devedor de todas as suas fontes de financiamento.

E é assim que agimos com a realidade. Quando a nossa realidade se mostra desagradável em algum momento, geralmente procuramos uma solução rápida e superficial, que altere a aparência da situação, mas raramente encaramos as suas causas, porque isso significaria mexer naquilo que menos gostamos de mexer: nós mesmos.

Isso implicaria em aceitarmos as nossas realidades internas, aceitar integralmente o que somos, tanto aquilo que consideramos positivo quanto negativo. Até porque não temos como resolver os aspectos negativos se não os conhecermos.

Vale ressaltar que isso não quer dizer autoflagelação, por estarmos nos deparando com aspectos em nós que não gostaríamos que estivessem lá. Isso só causa sofrimento quando atribuímos esse sofrimento a esse aspecto negativo, o que não deixa de ser uma maneira de nos boicotarmos no nosso trabalho de melhoria. As coisas supostamente negativas simplesmente são o que são, e ficar sofrendo em cima delas ou horrorizados em como tal coisa pode estar dentro de nós mesmos não passa de orgulho ferido.

E como já sabemos, umas das coisas mais prejudiciais que albergamos em nós é o nosso orgulho.

Quando ficamos nos fechando em nosso casulo de ilusões a respeito de nós mesmos, estamos na verdade fugindo da realidade, por pura imaturidade. Essa é uma fase natural do nosso desenvolvimento, mas se torna desfuncional quando nos apegamos à nossa imaturidade, como Peter Pan e sua infância eterna, auto-exilado na sua Terra do Nunca, brigando eternamente com seus piratas imaginários -  e sem nunca sair do lugar.

E presos nessas terras de fantasia, não percebemos a realidade verdadeira, como o sujeito com sua dívida no banco. Mas quando decidimos por vê-la completamente, ela se mostra como é, e trabalha conosco, da maneira que é melhor para a gente. E vamos descobrir que, se por um lado vamos ter que gastar menos em bobagens, por outro, a vida nos traz novas possibilidades de trabalho, outras fontes de renda, outras experiências mais econômicas e tão prazerosas tanto, e após viver de braços dados com a realidade, não vamos conseguir compreender como é que pudemos viver tanto tempo restritos ao nosso extrato bancário e aos nossos hábitos antigos repetitivos.

No filme, a vida agiu exatamente assim, de forma surpreendente. Um simples bilhete dado pela pessoa certa na hora certa permitiu que o senhor idoso enxergasse a realidade dos fatos e os aceitasse do jeito que eram, se libertando do fardo que ele mesmo tinha se imposto, de resolver uma situação que estava completamente fora de sua esfera de ação. Fora de seu casulo, ele se abriu a novas possibilidades, e começou a viver de novo.

The Gulf of Araby

Words and music by Katell Keineg

If you could fill a veil with shells from Killiney””s shore
And sweet talk in a tongue that is no more
And if wishful thoughts could bridge The Gulf of Araby
Between what is, what is, what is
And what can never be

If you could hold the frozen flow of New Hope Creek
And hide out from the one they said you might meet
And if you could unlearn all the words
That you never wanted heard
If you could stall the southern wind
That””s whistling in your ears
You could take what is, what is, what is
To what can never be

One man of seventy whispers free at last
Two neighbors who are proud of their massacres
Three tyrants torn away in a winter””s month
Four prisoners framed by a dirty judge
Five burned with tyres
Six men still inside
And seven more days to shake at the great divide

The Gulf, the Gulf of Araby

Well, we would plough and part the earth to bring you home
And harvest every miracle ever known
And if they laid out all the things
That these ten years were to bring
We would gladly give them up
To bring you back to us
O, there is nothing we would not give
To kiss you and to believe we could take what is, what is, what is
To what can never be

One man of seventy whispers not free yet
Two neighbors who make up knee-deep in their dead
Three tyrants torn away in the summer””s heat
Four prisoners lost in the fallacy
Five, on my life
And six, I””m dead inside
And seven more days to shake at the great divide

The Gulf, the Gulf of Araby

 

 

Nota: Dicionário Michaelis: the Great Divide: o outro mundo, a morte.

O Golfo da Arábia

Letras e música de Katell Keineg

Se você pudesse preencher um véu com conchas das costas de Killiney
E bajular alguém em uma língua que não existe mais
E se desejos pudessem transpor o Golfo das Arábias
Entre o que é, o que é, o que é
E o que nunca pode ser

Se você pudesse deter o curso congelado do córrego de New Hope
E se esconder de alguém que te disseram que encontraria
E se você pudesse desaprender todas as palavras
Que nunca quis ter ouvido
Se você pudesse paralisar o vento sul
Que está assoviando em seus ouvidos
Você poderia converter o que é, o que é, o que é
No que nunca pode ser

Um homem aos setenta susurra finalmente livre
Dois vizinhos que se orgulham de seus massacres
Três tiranos depostos em um mês de inverno
Quatro prisioneiros condenados por um juiz corrupto
Cinco queimados com pneus
Seis homens ainda dentro
E mais sete dias para se abalar na Grande Passagem

(X2) O golfo, o golfo da Arábia

Bem, nós poderíamos arar e revolver a terra para te trazer pra casa
E colher todo e cada milagre já descrito
E se eles expusessem todas as coisas
Que esses dez anos teriam trazido
Nós abriríamos mão disso tudo sem pensar duas vezes
Para te ter junto a nós
Ah, não há o que não daríamos
Para te beijar e para crer que poderíamos converter o que é, o que é, o que é
No que nunca pode ser

Um homem aos setenta sussurra ainda preso
Dois vizinhos se reconciliam sobrepujados por seus mortos
Três tiranos depostos no calor do verão
Quatro prisioneiros perdidos na falácia
Cinco, sobre a minha vida
E seis, eu estou morto por dentro
E sete dias mais para se abalar na Grande Passagem

O golfo, o golfo da Arábia

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