Um cão sem raça com grandes orelhas.

Rex

Um cão sem raça com grandes orelhas.João chegou da escola, largou todo o seu material em cima da cama, e desceu correndo. De dentro da sala ele já via o rabo peludo do Rex. Quando chegou na varanda da sala, se deparou com o cãozinho levantando a cabeça, abanando o rabo, tentando se levantar do chão com esforço. “Shhhhh, amigão…” ele falou para o cachorro, enquanto abraçava o seu pescoço. Ele foi recompensado com umas lambidas, mas logo depois o cachorro voltou a deitar, com a cabeça entre as patas.

O coração do menino ficou apertado ao notar que a tigela de ração continuava intocada desde a noite anterior.

O dia foi passando, e o Rex continuou ali no cantinho dele. No final da tarde, Julieta deu os remédios para o cachorro, e de noite João convenceu o bichinho a beber um pouco de água.

João dormiu pensando no cachorrinho doente.

O Corujão deixou o menino na Tribo do Coiote Risonho, e depois das atividades costumeiras o menino procurou seu mestre, o Grande Colibri.

“Boa noite, Mestre Coli.”

“Boa noite, pequeno curumim. O Rex não está nada bem, né?”

O menino sentou na grama, enxugando uma lágrima. “Mestre Coli, o senhor não pode ajudar o Rex?”

“Com certeza, João. A questão é, como devemos ajudá-lo?”

“O que o senhor quer dizer com isso?”

Grande Colibri se sentou junto ao menino. “Tudo na natureza é uma manifestação do Grande Criador, e cada criação, das menor formiguinha às maiores estrelas, preenche uma trilha em direção a Ele, se tornando cada vez mais aquilo que Ele concebeu para aquela criatura.

“Quando somos colocados lado a lado com outras criaturas, é para que possamos ensinar uns aos outros aquilo que já descobrimos em nós das nossas características divinas, compartilhando assim o Criador entre nós todos.

“Isso é verdade até mesmo para o seu animalzinho de estimação. O que você ensinou para ele?”

“Ah, o Rex sabia pegar bolinha, sentar, fingir de morto…”

“Sim, curumim, isso, e uma coisa que você não percebeu: você o ensinou a ser gente!”

“Como assim?”

“Os animais de estimação, um dia, vão se desenvolver até consciências individuais, como nós! No momento, eles fazem parte de grandes consciências, que cuidam de todos os indivíduos daquela espécie de animal. Algumas espécies, por já estarem bastante avançadas, começam a receber um treinamento para o próximo estágio de desenvolvimento. Esses são os nossos animais domésticos. Eles vivem com a gente porque assim eles ganham referências de como é ser um ser individualizado.”

“Jura?”

“Ahn-han! E sabe o que é o mais interessante? Eles também podem nos ensinar coisas!”

“É?”

“Apesar de serem menos desenvolvidos em alguns aspectos, eles são mais desenvolvidos em outros. Os cães, por exemplo, são exemplos de amor incondicional, não importa o que façamos, até mesmo com eles, eles são capazes de continuar nos amando da mesma forma.”

O menino ficou quieto por algum tempo. “E o que isso tem a ver com a doença do Rex?”

“Os animais, por estarem num estágio de consciência diferente, têm corpos mais resistentes a determinadas energias. Quando vivem junto a pessoas, eles absorvem algumas energias que seriam prejudiciais às pessoas que eles amam, porque faria muito mais mal a elas do que a eles. Ao longo do tempo, no entanto, até mesmo o corpo deles passa sofrer os efeitos dessas energias, e então eles ficam doentes.”

“Isso quer dizer que é minha culpa que ele está doente?”

“Não existe culpa, pequenino. É da natureza da alma encarnada  na Terra acabar produzindo certas energias, enquanto vive suas experiências de aprendizado e evolução. E é da natureza desses animaizinhos absorvê-las. Tudo faz parte do imenso intercâmbio que ocorre entre as criaturas do Grande Mistério.”

“Mas eu não queria deixar ele doente!”

“Não despreze um grande presente de amor que o seu cachorrinho lhe deu, filho. Ele simplesmente cumpriu o papel dele, garantindo que você pudesse desfrutar das melhores condições do seu corpo físico. Mas, se você quer saber se pode aliviar o trabalho dele, isso você pode, transformando-se e crescendo em consciência, para que essas energias ruins não sejam mais produzidas por você.”

“Isso quer dizer que você não vai sarar o Rex?”

“O corpo do Rex já não tem mais condições de suportar a condição encarnada dele. Na verdade, ele só não partiu ainda porque ele está insistindo em cuidar de você.”

“E eu vou poder ver ele aqui na tribo?”

“Não, ele vai continuar seu caminho evolutivo em outras partes.”

“Nunca mais eu vou ver o Rex?”

“Nunca pisamos no mesmo rio duas vezes. O mesmo acontece com o seu cãozinho, como consciência. Ele vai se juntar a outras experiências de outros cãezinhos amorosos como ele, e em algum momento uma consciência individual, com um pouco de todos eles, vai surgir, em algum lugar do Universo.”

João se levantou e deu um abraço no seu Mestre. Caminhou pensativo, sob a lua, no meio das árvores, e depois deu um assobio, chamando o Corujão, que o levou de volta para casa. Antes de retornar ao seu corpo físico, se sentou ao lado do Rex, que olhou para ele e ficou feliz, como sempre faz quando ele chega.

“Amigão, muito obrigado por toda a ajuda que você me deu, eu te amo muito! Fica livre pra seguir o seu caminho, não precisa mais ficar cuidando de mim… tenho certeza que um pouquinho mais que você aprender, já vai ser uma ótima pessoinha, em algum lugar. Você faz parte do meu coração. Te prometo que vou me dedicar para cada vez mais só criar coisas boas ao meu redor, tá?” O Rex só olhou para ele, com aquele olhar canino.

No dia seguinte o Rex morreu.

Toda a família do João foi levar o corpo do cachorro para ser cremado, muito tristes.

Quando voltaram, o Eduardo levou os meninos para ficarem com ele. Eles estavam passando de carro em frente a uma praça, quando o João gritou “Pai, encosta o carro agora!!” Meio no susto, Eduardo estacionou o carro, e João nem perguntou nada, abriu a porta e saiu correndo, praça adentro, até parar debaixo de uma árvore, onde estavam dois filhotinhos de cachorro, dentro de uma caixa, ainda com os olhos fechados.

Mais uma aula de amor incondicional se iniciava naquele momento.

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