Busto de Alexandre, o Grande

Insolúvel, é?

Busto de Alexandre, o Grande

Alexandre, o Grande, 356 A.C. - 323 A.C.

Conta a lenda que muito tempo atrás o rei da Frígia morreu sem deixar herdeiros. Os sacerdotes do reino correram se consultar com os deuses, e, pasmem, a mensagem era que o próximo homem que entrasse na cidade em cima de um carro de boi seria o rei. Um tempo depois entrou Górdio com seu carro de boi, talvez meio sem saber qual que era a razão de toda a festa que estavam fazendo para ele. Ainda por cima, para deixar bem claro que ele não era um espertinho que saiu correndo e pegou o carro de boi do povoado vizinho só para ganhar um cargo público, uma águia, símbolo de Zeus, pousou no seu carro enquanto ele era recebido pelos sacerdotes. Melhor que certidão negativa de antecedentes criminais.

Muito honrado e contente com a notícia, o filho de Górdio, Midas, eternizou o singelo carro de boi transformando-o em um monumento, amarrando-o num poste com um nó impossível de ser desatado.

Reis vêm, reis vão, e o nó continuava ali, impávido, centenas e centenas de anos. Ficou tão famoso que foi dito que quem conseguisse desamarrar o nó se tornaria o rei de toda a Ásia.

Entra em cena, então, Alexandre, o Grande, interessadíssimo em se tornar o rei do mundo inteiro. E começar pela Ásia com certeza era um bom começo. Segue ele e todo o seu séquito de gregos para a pobre Frígia, que naquela época já não era mais que uma província, provavelmente se orgulhando daquele nó e daquele carro de boi da mesma forma que Itu se orgulha de ter o maior orelhão do mundo.

Alexandre se debruçou sobre o problema do nó, então, disposto a queimar todo o fosfato que fosse necessário para resolvê-lo. Mas em certo momento deve ter achado também que tinha coisas mais importantes para fazer, e, na versão mais interessante dessa lenda, sacou a espada, cortou o nó com um só golpe, e deu o assunto como encerrado.

Em tempo, diga-se que realmente Alexandre tornou-se o rei de toda a Ásia.

A todo o momento somos colocados perante situações que temos que resolver, e muitas vezes essas coisas parecem insolúveis. Nesses momentos, nos sentimos limitados, como se algo estivesse faltando, que pudesse desfazer aquele embróglio.

Nos esquecemos, no entanto, que esses limites foram estabelecidos por nós mesmos, ao nos restringirmos a utilizar somente o conhecimento vigente, e a fazer somente o que se faz normalmente nessas situações.

Essa limitação acontece porque nos identificamos com o nosso aparelho pensante, que tem a tendência de ficar tagarelando em círculos. Se fizéssemos o exercício de pensar em voz alta, vocalizar tudo o que nos passa pela mente assim que é pensado, por algumas horas, provavelmente nos internariam num manicômio. Mas, como fazemos isso de boca fechada, somos considerados normais.

Ninguém escuta a nossa falação interna, que argumenta, desargumenta, expõe milhares de razões para fazer certa coisa de um jeito, daí, quando a gente parte para fazer essa coisa daquela maneira, reforça todos os argumentos contra, para nos dar insegurança, e continuar todo o debate. Depois, se o resultado não é aquilo que ela previa, nos inunda de culpa e auto-acusações, mas, quando o resultado se aproxima daquilo que ela deduziu, sai toda contente proclamando a sua conquista aos quatro ventos e nas redes sociais.

Lidar com esse desarvoro interior é muito mais premente do que resolver a maioria dos “problemas” externos, até porque a maioria deles existe só porque a mente é uma super calculadora feita para solucionar problemas e, se ela não tivesse o que resolver, ela teria que sair de cima dos palcos, onde tem estrelado o seu dramalhão mexicano.

E fazer isso parece um nó górdio, e é mesmo. Como aprendemos com o Grande Alexandre, a solução é muito mais simples do que se considerava inicialmente.

Consiste em cortar a mente, desfazê-la. Ela não vai deixar de existir, obviamente, até porque tem as suas utilidades – amarrar os sapatos, por exemplo. Mas temos que nos habituar a simplesmente retirarmo-nos da discussão. Se ela é o coelhinho de brinquedo que não pára nunca, nós somos as pilhas Duracell. Temos de nos tornar atentos de que o debate está acontecendo, e que não vai a lugar nenhum. Temos que nos conscientizar que esses debates NUNCA chegam a lugar algum. Todas as vezes que encontramos soluções reais para os nossos “problemas”, eles vieram num átimo, prontinhos.

Aliás, em sânscrito, alma é atman. Interessante, não?

Criar esse espaço quieto dentro de nós mesmos é o que nos permite manifestar a clareza que nos é própria, iluminando nossas situações de vida, e fazendo com que nossos átimos sejam cada vez mais duradouros. Resolvendo nossos nós górdios, atingimos nossos objetivos, assim como Alexandre atingiu os dele.

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