Nada além de uma mão masculina estendida em nossa direção

Prova de Religião

Nada além de uma mão masculina estendida em nossa direção

Quem foi Jesus Cristo?

Resposta: Foi um baita de um professorzão que veio ensinar a gente o que perdão era de verdade.

Qual a importância dos sacramentos da Igreja?

Resposta: A importância que a gente dá.

O que é anjo da guarda?

Resposta: Depende do que a senhora entende como anjo da guarda. Tem um monte!

O que devemos fazer para agradar a Deus?

Resposta: É fácil, é só seguir o nosso coração!

Dona Julieta leu a prova acima algumas vezes. Enquanto ela lia pela terceira vez, a professora Catarina resolveu que era melhor começar a falar.

“Então, Dona Julieta, eu tive que chamar a senhora para a gente conversar. É sobre o João.”

“Não estou te entendendo.”

“Eu estou muito preocupada com o desempenho dele. Se ele continuar assim, vai acabar repetindo de ano…”

“Mas ele sempre foi super bem na escola!”

“Mas olha só a prova dele! Tirou zero!”

“Você deu zero para ele de religião?”

“A senhora mesma está lendo as respostas, estão todas erradas! Também, não presta um pingo de atenção! O livro dele de Religião, imagina só, cheio de desenhos de super-heróis, uns tais de Superbananas.”

“É, ele é muito criativo.”

“Mas Dona Julieta, como fica a integração dele com os outros amiguinhos da turma? Não é nem um desses desenhos que passam na televisão! Os outros meninos estão tirando sarro dele! Olha, é o meu dever como educadora, a senhora tem que levar esse menino para um psicólogo, tomar ritalina, algo assim, para lidar com esses problemas dele… eu sei, deve ser difícil, filho de pais separados… Do jeito que ele está, não pode ficar, daqui a pouco vai começar a usar drogas!”

O olhar da Julieta era mais cortante que as facas Ginsu. “Você deu zero para ele de Religião?”

Catarina olhou para os céus, pensando se ia ter que desenhar para ela ou se ninguém naquela família era capaz de entender o que ela falava. “As respostas estão todas erradas! Eu fico preocupada, se ele continuar mal assim, vai repetir de ano!”

“Você vai fazer ele repetir de ano por causa da aula de Religião?”

“Dona Julieta, Religião faz parte do currículo da nossa escola! Faz parte da formação ética e moral que todos nossos alunos recebem e que os tornam pessoas dignas perante a sociedade!”

De ouvir isso, o coração de Julieta ficou tão apertado que parecia um ponto, e alguma coisa aconteceu dentro dela. Ela olhou bem para aquela pessoa à frente dela, tão apagada, e ao mesmo tempo viu dentro de si aquele menino, cheio de alegria e novidades, que era a luz de sua vida, cheio de espontaneidade e pureza, e entendeu que tudo aquilo precisava ser protegido senão ele perderia sua integridade, deixaria de ser quem ele era! E ninguém, ninguém mais no mundo todo, poderia fazer isso, a não ser ela!

Ela virou uma onça, ali mesmo.

“Olha, Catarina, eu posso não entender um monte de coisas que o João faz, mas eu tenho certeza que ele entende muito mais de Religião que você. E nem você, nem ninguém, vai fazer mal pro meu filho, nem por cima do meu cadáver!”

“DONA JULIETA! Não é isso que eu estou falando!”

“Eu sei muito bem o que a senhora está falando, não precisa nem querer explicar. Aliás, não precisa nem falar comigo mais, eu não volto mais aqui, nem eu, nem o João, nem o Augusto.”

Ela saiu, pisando duro, mas antes de ir ainda disse para a professora boquiaberta: “E os heróis dele são os Superbacanas, sua gorgolíngula!”

No dia seguinte começava o final de semana em que o João ficava na casa do pai, e, diferente do que sempre fazia, Julieta avisou que levaria os filhos até lá. Ela sabia que o Eduardo ainda não estaria em casa, e quem veio recebê-los foi a Mônica. Julieta respirou fundo, massacrou seu orgulho, e seguiu a ideia mais estranha da vida dela, mas que ficou martelando em sua cabeça a noite inteira. Ela disse:

“Mônica, você conhece alguma escola onde eu possa matricular os meninos?”

Na próxima segunda ela foi conhecer a escola que a Mônica indicou, ainda rindo da cara da Catarina. Na recepção, começou a folhear uma revista, a secretária disse que o diretor já já desceria para apresentar a escola para ela. Distraída que estava, nem reparou quando ele chegou, estendendo-lhe a mão:

“Dona Julieta? Que bom te conhecer! Prazer, meu nome é Romeu.”

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