Numerosas esferas com carinhas pintadas. Todas são azuis, e têm carinhas tristes, exceto uma, que é amarela e tem uma carinha feliz

Inexplicável

Numerosas esferas com carinhas pintadas. Todas são azuis, e têm carinhas tristes, exceto uma, que é amarela e tem uma carinha felizA parcela da realidade que percebemos com nossos sentidos comuns é muito pequena. Essa nossa restrição faz com que muitas coisas que acontecem não tenham explicação lógica.

Definimos a nossa realidade pelo que percebemos, e assim deixamos a maior parte de fora. Ocorre que tudo isso que deixamos de fora não deixa de nos afetar, por mais que tentemos deixar tudo isso de fora.

Uma das maneiras dessa parcela cuja invisibilidade forçamos são as doenças. É como se essa parte que desconhecemos quisesse se fazer ouvir de qualquer maneira, e vai tentando até encontrar uma maneira que nós não conseguimos sobrepujar. E olha que tentamos!

Mas existe uma outra forma de selecionar a realidade que exercemos, que é determinarmos que as coisas devem funcionar de uma certa maneira.

Englobamos milhares de roteiros de como tudo deveria funcionar. Esses roteiros vão sendo entregues a nós diariamente por muitos anos, desde o nosso nascimento, se considerarmos somente aqueles que recebemos nessa vida. Diligentemente vamos decorando eles todos, e passamos a acreditar que, quando os seguirmos, vamos ser realmente felizes.

Claro que as coisas não funcionam assim, e damos com os burros n”água, percebemos que as promessas feitas de forma subentendida não se sustentam. Mesmo assim, nos seguramos ao conceito de que deve haver uma forma de ser feliz, e então substituímos um roteiro por outro, que invariavelmente se mostra falso também.

Então ficamos frustrados com a vida, quando a vida não fez nada para nos deixar frustrados.

É fácil percebermos que essa forma de padronizar as nossas experiências vai se tornar inadequada para a maioria das pessoas. O que exige um pouco mais de atenção é percebermos que a questão é mais profunda.

Quando abraçamos esses roteiros, implicitamente compramos também uma determinação da realidade onde tudo tem que ter uma causa e uma consequência. Somada com a nossa restrição sensorial, ainda extrapolamos que todas essas causas e consequências têm que se manifestar no nosso mundo palpável. Isso também implica que todas as coisas têm que ter um início e um fim, porque tudo no mundo material é limitado, incluindo o nosso bem estar.

E quando estamos bem fixos nesse paradigma, tudo aquilo que ignoramos nos dá um safanão, que nos parece ter vindo do nada.

E nós, pessoas fixadas e rígidas, ficamos boquiabertos quando alguém que não segue esse nosso paradigma passa frente a nós vivendo aqueles resultados que desejávamos viver.

Enquanto estivermos pregados na nossa realidade material, vamos continuar boquiabertos, porque parte dessas pessoas livres não conseguiriam explicar o que estão fazendo para serem assim satisfeitas com a vida; elas simplesmente vão seguindo seus impulsos interiores, sem se preocupar com quaisquer explicações. Como já sabemos, frequentemente essas explicações abarcam um escopo de realidade muito maior do que conseguimos apreender no momento.

Outra parte dessas pessoas simplesmente não vão nos contar, porque o que lhes permite agir tão fielmente em consonância com seus Eus Superiores, sendo então felizes constantemente, é o controle de seus egos.

O ego é o nosso núcleos inteligente que tenta definir uma individualidade, mas baseada no egoísmo, no orgulho e na separatividade. Quando alguém trabalha para superar o seu próprio ego, passa a viver na sua realidade interior, enquanto o ego se alimenta constantemente da realidade exterior, da opinião alheia, dos que os outros fazem. Portanto, essas pessoas não vão nos informar o que estão fazendo para supostamente justificar seus estado de felicidade, porque estamos funcionando no nível externo, e dar a resposta que procuramos, nos níveis externos, poderia alimentar um ego que está bem controlado e débil, mas procurando qualquer oportunidade para se fortalecer.

Assim, para quem observa as coisas todas por fora, as maneiras que as coisas se desenrolam sempre positivamente para essas pessoas não tem a menor lógica. Mas, para quem busca essa informação pelas vias interiores, isso faz todo o sentido.

O importante é nos lembrarmos que a nossa existência objetiva sempre o Bem: o bem estar, o bem fazer, o bem viver. Cada um, de sua maneira individual, busca isso, mas precisamos cada vez mais valorizar a nossa experiência, e não as receitas e roteiros entregues por outras pessoas. O nosso aqui e agora resume tudo aquilo que tem que ser lidado das nossas existências naquele momento, e a forma de agir é orientada pelos sentimentos originados do nosso coração. O resultado é sermos inexplicavelmente felizes.

 

Felicidade

Luiz Tatit

Não sei por que tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso, claro
Mas claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

Não sei por que to tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Eu perdi um dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e to desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho e sem saída
Sem dinheiro e sem comida e feliz da vida

Não sei por que tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí
Fiz todas as terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa
E sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não
Fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que é que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que eu não fiz
Fiz muito pouca coisa aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade
Por que então tanta felicidade?
E dizem que eu só penso em mim
Que sou muito centrado, que sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética e faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes, dentre todos os felizes sou o mais feliz

Não sei por que eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca por uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim eu já tentei de tudo
Enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti vou ser feliz pra sempre

Peço a todos com licença
Vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho só com muito espaço
Peço a todos com licença
Vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho só com muito espaço

Deixar uma resposta

  • (will not be published)

XHTML: Pode usar estas marcas: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>