Mafalda deixando a cena após pregar um aviso de "Cuidado, Irresponsáveis trabalhando" sobre um globo terrestre.

Cuidado, irresponsáveis trabalhando!

Mafalda é uma personagem criada pelo cartunista Quino, da Argentina. É uma menina gorducha, em idade escolar, que representa uma visão sagaz e livre de dos absurdos que a sociedade aceita placidamente. Nessa tirinha, ela abre o dicionário em busca da definição de democracia, onde se lê: governo onde a soberania é exercida pelo povo. Imediatamente ela começa a gargalhar, e numa sequência muito divertida de quadrinhos ela continua a rir o dia todo, perante a cara de incompreensão de seus pais, tamanho o absurdo que essa definição representa frente ao que ela vê ao seu redor.Tudo que percebemos ao nosso redor é uma ilusão, uma projeção recebida pelos nossos sentidos, e interpretada pela nossa mente, do Universo que nos cerca, da mesma forma que as palavras que usamos não são as coisas às quais elas se referem, mas são indispensáveis para que possamos interagir com as demais pessoas.

Isso não seria problema algum, desde que estivéssemos conscientes de que é isso que ocorre. No entanto nos envolvemos em camadas dentro de camadas de ilusões, que vão sendo consideradas cada vez mais verdadeiras, até que acabamos acreditando que são a verdade. Quem poderia dizer que uma nuvem é branca se todos usam óculos vermelhos?

Uma dessas ilusões é o conceito de autoridade externa. Aceitamos que outras pessoas têm o poder de nos comandar, de ditar o que podemos e o que não podemos fazer. Aceitamos que essas pessoas se organizassem em estruturas hierárquicas imaginárias, que delimitassem linhas imaginárias sobre as terras, formando países que não podem ser outra coisa a não ser imaginários.

Só não são de mentirinha porque nós investimos nessas ilusões constantemente, sem saber o que estamos fazendo. Todo mundo já ouviu falar de pátria, que aqui no Brasil tem que ser amada, idolatrada, salve salve, mas a pátria em si já é uma contradição de termos, uma figura paterna que é feminina ao mesmo tempo.

E porque esse investimento acontece? Por uma séria deturpação da ideia de governo.

Enquanto as consciências individuais são muito imaturas, precisam ser conduzidas, procurando otimizar os trabalhos realizados pelas comunidades, em prol de um bem comum. Mas um governante real não procura atrofiar as pessoas que confiam nele, ao contrário, quer que elas se desenvolvam, afinal seu objetivo deveria ser o desenvolvimento de todos.

Porém decidimos nos enfiar num círculo vicioso. Tomados pela preguiça, interpretamos o governante como uma boa desculpa para nos acomodarmos. Propusemos um acordo, em que os governantes assumiriam as nossas responsabilidades, e em troca nos curvamos perante a sua suposta autoridade. Com certeza nenhum governante evolutivo concordou com isso, porque sermos responsáveis é um ponto essencial da nossa evolução, é uma face da Lei de Causa e Efeito. E exercer esse tipo de autoridade seria restringir o livre-arbítrio.

Ficamos então revoltados com a recusa da nossa proposta supimpa, e, na nossa incompreensão, buscamos então figuras que aceitassem essa proposta, e nos submetemos placidamente a elas. Coletivamente, assumimos de livre e espontânea vontade um grande estelionato, onde assinamos papéis para supostamente forjar um compromisso em que essas figuras assumissem as nossas responsabilidades, e ainda assim usariam seu poder para nos fazer o bem.

Obviamente, essas figuras, que já sabemos serem involutivas, usam esse poder para fazer o que bem entendem, e com a nossa anuência. Cobram dinheiro, inventam e desinventam propriedades e necessidades, constroem armas e conflitam-se com outras figuras de autoridade. Claro que alegamos que não era isso que queríamos, o que queríamos era que descesse um santo que fizesse tudo certo, para que continuássemos eternamente num estado infantil e idílico, vítimas quando coisas desagradáveis acontecem, e exaltados em público pelas vantajosas.

Diga-se de passagem que a ideia de uma infância idílica é outra grande ilusão. Assim como a de amor romântico.

Felizmente, nossa infância espiritual está morta, e atualmente está sendo cremada. Temos que nos modernizar espiritualmente, antes que nos tornemos obsoletos.

Ao assumirmos uma postura adulta perante a Vida, nos tirando do papel de vítimas, retomamos o poder de influenciar a Vida, e conduzi-la para onde quisermos. Ou seja, assumimos o governo de nós mesmos. Isso envolve um desenvolvimento de consciência, para percebermos que todos somos diferentes, mas por isso mesmo igualmente essenciais ao Universo, de forma a prescindirmos de uma pátria, uma figura autoritária, um deus sentado num trono com longas barbas que nos mande e desmande.

Escalando esses degraus de consciência, passamos então a investir na fraternidade, não nesse sentido de assistencialismo barato, mas percebendo os demais como co-criadores da nossa realidade onde ela se compartilha. Num estado real de fraternidade, nossos governantes não são figuras autoritárias, mas nossos irmãos mais velhos. E nós não somos súditos, ou eleitores, mas seres em treinamento para patamares de realização cada vez maiores e mais elevados.

 

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