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Interface

Como se refererir alguma coisa que não é física? Como transmitir uma mensagem que é maior que as palavras que dispomos para descrever nossa realidade? Como entrar em contato com realidades tão diferentes das que estamos habituados que sequer conseguimos conceber uma idéia a respeito delas?

Fácil, recorremos a símbolos e a metáforas.

Isso é natural e instintivo, basta observar que movimentamos as mãos enquanto falamos, e utilizando uma linguagem que aprendemos pela observação adicionamos mais informações às palavras ditas.

Aqui no Brasil temos um contato fácil com a Igreja Católica, que dispõe de diversas imagens de santos e das aventuras de Jesus Cristo. Uma imagem pintada, ou uma estátua, sintetiza toda uma mensagem, que é desdobrada quando vista. Uma imagem da Santa Ceia automaticamente faz a tia carola desfiar todos os eventos da história de Jesus que levaram àquele momento. E, se a imagem é marcante de alguma forma, aquela mensagem é gravada profundamente na mente do ouvinte, que não vai resistir a repetir tudo quando encontrar aquela imagem de novo.

Essa tática também é usada no oriente, com a representação dos deuses hindus, por exemplo; mas como provavelmente eles tinham mais treino de captar essas mensagens, as imagens deles concentram mais informações. A idéia que nós temos que os deuses deles têm muitos braços e cabeças é meio tola, porque na verdade são apenas um ajuntamento de símbolos. Como falamos, as mãos, por exemplo, são extremamente simbólicas. Uma mão pintada pode tranquilamente transmitir a idéia de entregar algo, ou de tomar algo, ou de controlar algo. Assim, quando eles queriam dizer que alguma divindade distribuía bênçãos ao mesmo tempo que afastava as dificuldades, desenhavam as mãos dela em determinadas posições ou segurando determinados objetos que transmitissem, na cultura deles, essas idéias. A única diferença das nossas imagens é que, quando uma divindade tinha mais de dois atributos que podiam ser representados pelas mãos, os artistas hindus não se incomodavam em nada em adicionar uns braços a mais.

Ou seja, naturalmente expandimos nossa consciência para níveis além do físico, e descrevemos essas experiências atribuindo novos significados para as coisas com as quais vivemos.

O interessante é que, da mesma forma que tentamos partir do mundano para o simbólico para atingir realidades imateriais, as realidades imateriais também usam os símbolos para atingir o nosso mundo trivial. E isso é feito através de uma parte da nossa mente que é chamada de mente abstrata. Todos nós a temos, apesar de muitas vezes não darmos muita atenção a ela.

Se a nossa realidade física fosse o fundo de um lago, a nossa realidade mental e emocional, a água do lago, e a nossa realidade da alma, o ar sobre o lago, a mente abstrata seria aquela névoa que de certa forma mistura a água com o ar. A mente abstrata procura fazer uma interface entre a alma e as camadas mais densas do ser, e faz isso se utilizando de símbolos. Esses símbolos nós recebemos quando sonhamos, ou quando temos uma sensação de importância quando algo ocorre perante nós.

O que atrapalha nosso acesso a esse estrato da nossa mente é o hábito de sermos extremamente racionais, o que nos leva a descartar essas mensagens porque achamos que não fazem sentido. Achamos os sonhos simplesmente esquisitos, e como não damos atenção a eles, logo esquecemos deles. Um animal cruza nosso caminho e temos uma sensação diferente, mas como não estamos acostumados a reconhecer os símbolos que a vida nos dá, os ignoramos. Diferente de outras culturas, não acreditamos que essas coisas possam ter significado. Mas isso pode ser aprendido, que nem quando entramos na escola e aprendemos que levantar a mão significava o desejo de fazer uma pergunta.

Depende somente da nossa intenção e da atenção que damos aos símbolos que recebemos. Eles foram feitos para serem entendidos, mas, diferente do nosso aprendizado mental habitual, esse entendimento simplesmente chega à nossa mente e se mostra, de dentro para fora.

Inicialmente a nossa consciência se restringia somente ao fundo do lago. Depois, a expandimos para que abraçasse também as águas dele, e por muito tempo pensamos que isso bastava. Agora, estamos recebendo convites para ir além, descobrindo novas possibilidades que jamais poderíamos conceber (como descrever o vento para quem sempre ficou sob a água?). O passo intermediário é utilizarmos nossa mente abstrata, e aprendermos com a prática diária os significados contidos nos símbolos que ela nos apresenta.

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