losing my religion angel

Abandonando minha religião

Muita gente pensa que a canção “Losing my Religion”, composta por Michael Stipes, se refere à perda de fé em alguma religião específica. Em uma entrevista a um programa de televisão, ele falou dos bastidores dessa música, e disse que na verdade o título é uma expressão do sul dos Estados Unidos e que se refere àquela situação em que a pessoa está apaixonada por alguém e está dando todos os sinais, jogando todos os verdes, e a pessoa não dá a mínima.

Realmente, sob esse ponto de vista, a canção é mais fácil de entender, e ganha significados mais práticos. Muitas canções são muito boas para nós porque expressam em ritmo, música e palavras sentimentos que todos temos, mas que não sabíamos bem como expressar. Uma vez que isso é feito por um artista, ganhamos uma referência e um ponto de apoio, uma ferramenta que podemos usar para entender a nós mesmos.

Essa canção é muito interessante porque pinta ricamente, com palavras, o processo de estarmos pirando dentro de uma ilusão.

Logo no começo, ele já passa uma idéia de ter sofrido o bastante, dizendo que a vida é maior que o ponto focal das suas idéias, e que esse ponto não é ele mesmo, como se fosse dizer um basta, mas logo vemos que a as coisas não são bem assim, porque em seguida ele expressa o medo de ter falado demais. Aqui já vemos uma coisa muito importante, que é o nosso apego às nossas ilusões, o medo que sentimos de perdê-las. Elas podem até ser desagradáveis, mas de certa forma são conhecidas e, por isso, confortáveis.

Lembremos que nossas ilusões trabalham para se manterem, alimentadas por crenças que temos de precisarmos delas. Elas não são más no sentido maniqueísta, na verdade elas estão apenas obecedendo nossos impulsos subconscientes. Para fazer isso, elas ficam nos jogando de um lado para o outro, nos fazendo viver extremos opostos de uma determinada situação, mas somente até o ponto em que não nos liberamos delas.

Na canção, por exemplo, vemos como ele por um lado reclama da dor que sente por não obter aquilo que deseja, o que deveria impulsioná-lo a perseguir seu objetivo, mas por outro, quando tenta partir para a ação, é acossado por insegurança, fica imaginando maneiras de se declarar, e acaba não saindo do mesmo lugar.

A canção também mostra muito belamente a forma em que essas ilusões distorcem a nossa visão do mundo. “Eu achei que ouvi seu riso / Eu achei que ouvi seu canto / Eu penso que achei que vi você tentar”. Interpretamos as coisas que acontecem à nossa volta da maneira que é mais conveniente para fomentar a ilusão de que tanto gostamos, e vivemos num mundo mental fechado em nossos próprios pensamentos, conceitos e idéias.

E mesmo quando estamos nos conscientizando de que a origem do nosso sofrimento é a nossa própria cabeça, esses mecanismos polares continuam funcionando. Por um lado o compositor vê que isso tudo é uma fantasia, e receia que elas voltem a castigá-lo, mas basta algo que possa dar um pouco de esperança que sua paixão possa se concretizar (o que pode ser real ou não) que ele se apega a ela de novo.

E esse apego vai sendo levado até o fim da canção, porque mesmo quando ele acaba percebendo que tudo era só um sonho, a música termina num tom melancólico e triste, sinal que ele no fundo no fundo queria que sua ilusão não se desfizesse.

É com vivências como essas que começamos a entender a real natureza do apego, que não acontece por causa das coisas materiais, como geralmente as pessoas se gabam quando se dizem desapegadas. O apego que sempre recomendam que eliminemos é pelas nossas idéias e ilusões. Quando nos aferramos a elas nos acorrentamos ao irreal, e com isso nos separamos da realidade, o que empaca o nosso desenvolvimento.

Por mais um lado, essa é a beleza do nosso processo, porque é comparando o mundo ilusório que construímos para nós mesmos, e que nos estagna, e o mundo real (não nos referimos ao mundo material que os olhos comuns vêem), aprendemos como discernir entre essas realidades e como utilizar esses poderes de criação para desenvolver um mundo que nos faça o bem.

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