Pé na estrada

O mundo é um moinho

Grandes obras de arte são transcendentes, inundam as vidas das pessoas que as recebem, e se desdobram no nosso interior, dando-nos a oportunidade de investigar as nossas profundezas e crescer na nossa compreensão da existência como um todo, já que o se passa dentro de nós é o que encontramos também na realidade externa.

“O mundo é um moinho”, composta por Cartola, é uma dessas obras. Impossível não ser tocado por essa combinação de música e poesia, que transmite diretamente a dor e o sofrimento que sentimos quando alguém que amamos toma um rumo na vida que julgamos ser errado.

E a partir dessas palavras podemos fazer várias reflexões.

Existe dor, e existe sofrimento, mas ambos não são a mesma coisa.

Ambas são desagradáveis, mas a dor é essencial para a nossa vida aqui na Terra, nos alerta quando algo de errado está acontecendo, para que possamos tomar uma atitude para corrigi-la. O sofrimento tem um caráter muito mais subjetivo. É possível ter dor e ter nenhum sofrimento, ou sofrimento mínimo, como é demonstrado por muitas pessoas que vivem com dores crônicas. Um sentimento pode ser doloroso, mas por isso mesmo nos conduz a uma mudança e a um ganho de experiência. O sofrimento, ao contrário, nos amortece, nos freia na vida, nos limita intimamente, e vem do valor que damos às experiências desagradáveis. O sofrimento não nos ensina nada, muito pelo contrário, nos mantém inertes, porque nos coloca em posição de vítimas. O sofrimento só acaba quando nos cansamos dele.

Quando alguém que amamos age da forma que julgamos não ser a melhor para ela, inevitavelmente vamos sentir dor, mas não precisamos sentir sofrimento. Especialmente se essas pessoas já são totalmente independentes, e não temos mais influência real sobre elas, devemos então respeitá-las, porque não podemos roubar delas a razão de suas existências, que é experimentar.

Agradáveis ou desagradáveis, todas as experiências nos ensinam algo, e não temos como aprender com as experiências dos outros. Simplesmente, as realidades vividas por duas pessoas diferentes são completamente distintas, e o que externamente pode ser muito parecido entre elas, certamente tem origens incomparáveis intimamente. Cada pessoa tem um conjunto de habilidades, conhecimentos e crenças único, e lida com situações externas semelhantes de maneira individual. O fato de um pai ou uma mãe ter tido uma experiência que lhe causou dor ou sofrimento em uma determinada situação não quer dizer que seus filhos vão passar necessariamente pelas mesmas sensações em uma situação semelhante.

Se estiverem “errados”, a tarefa passa a ser a de aprender com aqueles que pretendiam ensinar.

E se estiverem “certos”… assim como em qualquer relacionamento amoroso, nessa situação é que se expressa o amor incondicional. Como receber o ser amado quando ele passou por experiências desagradáveis, apesar de ter recebido avisos a respeito, sem diminuí-lo, sem humilhá-lo, sem rancor, raiva ou ressentimento? Como restituí-lo exatamente à posição que ocupava anteriormente em nossos corações, quando sabemos que agora ele é uma pessoa diferente e muitas vezes mais sábia? Muitas vezes estar “certo” é mais complicado que estar “errado”.

Some-se também compreender que aquilo que foi aprendido geralmente é diferente de pessoa para pessoa, e que ela pode ter necessidade de passar várias vezes pelas mesmas experiências, até aprender tudo que queria aprender.

E boa parte desse aprendizado é nos livrarmos de nossas ilusões, de conceitos falsos que acumulamos nessa vida (e em outras, para quem acredita nisso), e que impedem o nosso perfeito desempenho quando lidamos com o mundo. Quantas vezes nos aferramos às nossas ilusões, como se fossem partes de nós mesmos, e vamos ter que descobrir, nos jogando na vida, que não somos nada daquilo.

Quando o mundo reduz nossas ilusões a pó, na verdade está nos fazendo um grande serviço, porque nos tornamos pessoas mais capazes, e mais conscientes de nós mesmos. A maneira que ele faz isso depende muito das nossas próprias escolhas, e de como encaramos esse serviço prestado. Não precisamos nos desiludir através da dor, e quando isso acontece, não precisamos nos prender ao sofrimento.

O mundo reage ao que damos a ele, e se estamos à beira de abismos, realmente os cavamos com nossos pés.

Mas, mesmo bordeando abismos, ou caindo, ou caídos neles, os mesmos pés que formaram os precipícios são aqueles que nos tiram de lá.

 

O mundo é um moinho

Cartola

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida0
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

Deixar uma resposta

  • (will not be published)

XHTML: Pode usar estas marcas: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>