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O Livro da Vida

Quando a luz chega aos nossos olhos, ela atravessa várias estruturas no globo ocular, que a concentra em uma diminuta área chamada fóvea, onde células nervosas especializadas, chamadas de cones e bastonetes, ao reagirem com a luz, desencadeiam sinais elétricos que percorrem os nervos em direção ao cérebro. Processos semelhantes ocorrem com o ouvido interno, com os receptores olfativos do nariz, com as papilas gustativas da língua e com as diversas estruturas espalhadas na pele que nos dão a sensação de temperatura, pressão, dor e os demais componentes do tato.

É curioso pensar que do ponto de vista do cérebro, tudo o que chega é uma quantidade imensa de impulsos nervosos, que são filtrados e processados pela arquitetura dos neurônios. O cérebro não tem qualquer contato direto com o mundo externo, apenas interpreta as mensagens que recebe dos neurônios periféricos. O cheiro daquela refeição deliciosa não passa de um conjunto de ondas químicas que chegam a certos conjuntos de neurônios de uma certa maneira.

Assim, concluímos que até aquilo que damos como mais certo em nossa interação com o mundo, que é a nossa percepção da realidade que nos cerca, não passa de uma grande interpretação de símbolos. Como o cérebro é uma estrutura fantástica, ele faz toda a interpretação em milissegundos, e trabalhamos com o significado daqueles impulsos. Significados que foram sendo atribuídos nos nossos primeiros meses de vida, conforme o nosso sistema nervoso foi amadurecendo. Da mesma forma que mal nos lembramos de como era ver as letras antes de sabermos ler, também não nos lembramos de como era receber esses estímulos e não ter um significado atribuído a eles.

Essa questão do significado é facilmente demonstrável. Se alguém que nunca foi treinado para desenhar se puser a esboçar o rosto de alguém, a não ser que seja um prodígio, vai desenhar uma figura que pouco corresponde àquilo que está vendo, por mais que se esforce. Uma coisa que frequentemente acontece nesses casos, por exemplo, é a pessoa desenhar a face muito maior do que o crânio apesar de, numa visão frontal, a face ocupar pouco mais da metade da área da cabeça. Isso ocorre porque a pessoa desenha aquilo que seu cérebro entende, e não aquilo que vê de fato.

Quantas vezes não ouvimos o relato de alguém que passou por uma experiência junto com a gente  e percebemos que as coisas não aconteceram bem da forma que ela está contando?

Portanto, vivemos imersos em uma existência de símbolos e significados. Existem símbolos que são interpretados da mesma maneira por um grande número de pessoas, enquanto outros têm um significado comum para  poucas, ou um significado particular. Ou tudo ao mesmo tempo, os significados se sobrepõem sobre uma mesma percepção e atingem a nossa consciência em uníssono.

Isso ganha real importância quando consideramos ser verdade o fato de que nada, nem mesmo uma folha que cai de uma árvore, acontece por acaso. Porque quando o acaso deixa de existir, automaticamente tudo tem um propósito, e tudo ganha um significado. O mundo que nos cerca se torna um grande livro, que ainda não sabemos ler.

Mais ainda, não só esse livro passa a existir, como logo percebemos que ele constantemente nos dá mensagens e indicações. E sendo esse livro construído de energia de Amor, ele procura constantemente nos indicar como obtermos o melhor em nossas vidas, e usando os símbolos que somos capazes de entender. Por isso é tão importante nos tornarmos proficientes no idioma desse livro, afinal ele vai fazer de tudo para que recebamos suas mensagens, de um jeito ou de outro. Quando a forma em que o recado chega a nós não nos agrada, muito provavelmente ele já usou vários outros recursos para se expressar, que nos passaram despercebidos, de discretas notas de rodapé a infográficos, até que não restaram opções a não ser levar uma jornalada com letras garrafais na cabeça. E muitas vezes não entendemos nem assim.

Quando percebemos que nossa realidade é simbólica, passamos a ter a possibilidade de conhecermos seus significados, desde os mais pessoais até os mais amplos. Todos eles são utilizados pelo Livro da Vida na aventura do Criador de interagir com suas Criaturas, que, ultimamente, são Ele mesmo. Cabe a nós desenvolver a habilidade de ler e escrever em Seu idioma.

Um comentário para “O Livro da Vida”

  1. Fabiana

    Um texto muito bonito! São nossos sentidos que dão sentido à realidade. E são tão subjetivos estes significados, que às vezes os sentidos se misturam, em um curioso fenômeno chamado sinestesia: É quando sentimos um cheiro doce, ou ouvimos um som aveludado. Sobre a luz, permita-me que eu diga humildemente que ela não percorre um mesmo caminho ao chegar a todas as pessoas. Você acha realmente que a luz, para ser interpretada, depende dessas vias e dessas estruturas físicas especializadas? Eu não estaria tão certa sobre isso. E por fim, o jeito simples, aberto e espontâneo como você fala sobre o Amor de Deus é realmente encantador! Muito obrigada!

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