creation

Temos que fazer o quê?

Buckminster Fuller, apesar de matemático, dava muita importância ao modo de falar as coisas. Para ele, por exemplo, ajudaria falarmos que estamos nos movendo para dentro ou para fora, ao invés de para cima ou para baixo, uma vezque nosso movimento sempre é em relação ao planeta Terra e não a nós mesmos; quando subimos, nos afastamos do centro da Terra, quando descemos, nos aproximamos dele. As palavras que usamos demonstram as formas dos nossos pensamentos. Falar de uma forma diferente muda o nosso ponto de vista, e vendo por outros ângulos podemos perceber novas coisas.

Esse é um exemplo um pouco excêntrico da forma de usar a linguagem, mas essa idéia pode ter usos muito mais cotidianos. Não temos o hábito de reparar no que falamos, ou nas palavras que usamos, e com isso perdemos a oportunidade de moldar o que parte de nós para o Universo.

Uma das coisas que mais frequentemente pensamos é o “tem que”. Já acordamos, levantamos, e temos que lavar o rosto, escovar os dentes, temos que ir trabalhar, temos que falar bom dia para todo mundo, temos que pagar as contas. E os nossos têns transbordam de nós e invadem o espaço alheio, logo já estamos dizendo que os outros tem que fazer isso ou aquilo.

Nada poderia ser mais enganoso.

Se existe uma coisa que praticamente todas as religiões concordam é que o ser humano tem livre-arbítrio. Não é excepcional tantas religiões chegarem a concordar com alguma coisa? Sinal que deve ser muito verdadeiro. E livre-arbítrio significa liberdade para fazer o que quiser, qualquer coisa. Essa liberdade foi dada por Deus para que exercêssemos nosso discernimento, tomássemos decisões e escolhêssemos os rumos de nossas vidas, contemplando depois os resultados de nossas ações.

E o “tem que” é exatamente o oposto, é não ter que escolher, não ter que discernir, somente seguir um script, uma regra pré-definida. Não temos que fazer nada! Pior ainda,  essa expressão é muito insidiosa, porque quando a usamos, muitas vezes a usamos contra nós mesmos, ou seja, nós estamos tolhendo a nossa própria liberdade. Absorvemos conceitos externos, muitas vezes errôneos, que só ganham poder sobre nós porque os assumimos como nossos e os reforçamos diariamente; abdicamos de nosso poder.

Não é somente um jogo de palavras. Experimente falar “eu quero” no lugar de “eu tenho”. Automaticamente você passa de vítima para autor. Quem tem que pagar uma conta tem um tom de coitado, pobrezinho, contando as moedas no meio do mês. Agora, eu quero pagar uma conta tem outra conotação, de quem ganhou seu dinheiro e é dono dele, de quem reconhece o valor do serviço prestado e do usufruto que fez desse serviço, do respeito pelas partes envolvidas nessa transação. Não tem nenhuma vítima. Além do mais, ninguém te obrigou a fazer conta alguma, você escolheu fazê-la. Pode ser menos confortável, mas é possível viver sem muitas comodidades. Mas escolhemos não ficar sem elas, e consequentemente somos responsáveis por essa escolha. E com o eu quero podemos parar para refletir sobre o que vamos fazer, e nos colocamos na posição de falar não.

Mesmo em situações extremas, isso é válido. Na verdade, até admiramos as pessoas que sustentam suas posições apesar de todas as pressões. Todo o movimento pela igualdade racial nos Estados Unidos começou porque Rosa Parks  se recusou a ter que dar seu assento para uma mulher branca e sentar-se no fundo do ônibus. Gandhi foi motivado pela sua indignação ao ver pelo que os indianos na África do Sul tinham que passar.

Quem tem que fazer ainda está num estágio infantil: somente as crianças têm que ser guiadas dessa forma, afinal ainda não desenvolveram seu discernimento. Quem escolhe o que fazer já está em outro estágio de consciência, de ser responsável e co-criador de sua existência. Exercer o livre-arbítrio é o que nos torna semelhantes ao Criador, pois se temos a liberdade de fazer qualquer coisa, podemos fazer coisas que ainda não existem, e só estão esperando por nós para serem manifestadas. É justamente o ato da criação, que para se desenvolver em sua plenitude depende de nós, da nossa consciência a respeito das nossas escolhas e ações, começando pelas pequenas coisas, como a escolha de palavras em nossos próprios pensamentos.

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