narciso

Identificação

Muitos filósofos dizem que o mundo em que vivemos é uma ilusão, e pensar nisso é algo que realmente dá vários nós na nossa cabeça. Afinal, como pode tudo ser uma ilusão, se eu vivo nesse tudo todo o dia e ele me parece tão real? No entanto, mesmo sem se chegar a qualquer questão metafísica, é fácil compreender que os conceitos que temos das coisas determinam a maneira de entender o mundo que nos cerca. Por exemplo, olhando nossos prédios e casas, que são geralmente cúbicos ou na forma de paralelepípedos, temos o conceito de que o quadrado é uma forma muito sólida e estável. Faça um teste: prenda dois palitos de mesmo tamanho entre si de forma que eles tenham total liberdade de movimento entre si, utilizando, por exemplo, um pedaço de barbante amarrado em uma extremidade de cada palito, de forma que eles quase se toquem. Repita o mesmo processo até que você tenha 4 palitos presos entre si, e por fim prenda a extremidade livre do primeiro palito à extremidade livre do quarto, formando o que deveria ser um quadrado. Ao tirar essa estrutura de cima de sua mesa, você vai notar que ela é totalmente frouxa e não mantém uma forma estável. Agora, se você fizer a mesma coisa procurando formar um triângulo, a estrutura triangular se sustenta e não muda de forma. O mesmo vale para estruturas tridimensionais, comparando-se um cubo e um tetraedro, se você tiver a paciência de montar essas estruturas. Então, quão sólido é realmente o cubo em que você mora?

Na verdade ele só se sustenta porque em algum nível existem vários triângulos em sua estrutura que restringem seus graus de liberdade e tornam a estrutura estável.

Observações como essa e outras muito mais interessantes foram feitas por Buckminster Fuller. Quando criança Fuller era praticamente cego, de forma que sua perspectiva do mundo vinha das coisas que ele tocava, e percebendo as coisas de forma diferente ele pôde perceber o que não paramos para realizar normalmente, como nosso pequeno experimento das nossas estruturas de palitos.

O mesmo acontece com o nosso mundo interno. Com a maior facilidade falamos coisas como “eu penso isso e aquilo”, por exemplo. Mas será que EU penso isso mesmo? Nós temos o hábito, ou a crença, que tudo o que se passa na nossa mente fomos nós que pensamos, mas se pararmos um pouco para prestar atenção, é fácil perceber que esse não é o caso. Se nós fôssemos responsáveis por tudo que se passa na nossa mente, poderíamos simplesmente decidir parar de pensar por algum tempo e ter algum descanso. Tentando fazer isso, perceberemos que não é o que acontece. Poucos segundos depois de tomar essa decisão algum pensamento já atravessa a mente, que puxa um outro e um outro. Pode parecer estranho, mas, a não ser que nos empenhemos em treinar nossa mente para que nos obedeça, ela funciona autonomamente. O mesmo acontece para nossas emoções; todos já vivemos momentos em que sentimos alguma emoção que não pudemos controlar, ou, mais frequentemente, nos comportamos de certo modo porque sentimos raiva de alguém ou medo de alguma situação, por mais que desejássemos que o contrário ocorresse.

Isso nos leva  ao problema da identificação, ou seja, o que consideramos que forma a nossa identidade, o que nos dá nosso sentido de “quem eu sou”. Como nos identificamos com nossa mente, achamos que somos o que passa nela. Como nos identificamos com nossas emoções, achamos que demos origem a elas. É o mesmo que alguém achar que é o cavalo que monta. Agora, se nos distanciarmos desses movimentos e começarmos a observá-los, ganhamos a possibilidade de passar a controlá-los, e ao invés de sermos o palerma que espera um dia que seu cavalo retorne à cocheira por vontade própria para poder descer, nos tornamos um cavaleiro que leva o cavalo onde quer, podendo até mesmo saltar obstáculos.

Assim, damos mais um passo em direção a nos libertarmos de nossas ilusões, e começamos a nos perceber como realmente somos. Esse processo é chamado desidentificação, e sua prática conduz ao autocontrole, e ao controle do mundo que nos cerca, afinal ele simplesmente reflete o que se passa dentro de nós. Através dela nossa mente e nossas emoções voltam a serem ferramentas excepcionais de relação com o universo, e nós podemos finalmente exercitar nossas habilidades em usá-las para criar o mundo em que realmente queremos viver.

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